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Geraldo Guimarães: Contador de histórias de luz e sombra

Por João Carlos de Faria
(originalmente publicado na Revista Vitti, ed. 100, de abril de 2014)

(Foto: João Carlos de Faria)

(Foto: João Carlos de Faria)

As pequenas cidades do Vale do Paraíba servem muitas vezes de refúgio para personagens com histórias interessantes. O jornalista Geraldo Guimarães, por exemplo, praticamente se esconde na pequena Redenção da Serra.

Ele anda anonimamente pelas ruas, frequenta os bares e convive com os moradores, sem que a maioria saiba quem é ele verdadeiramente. Nem imaginam que ele aproveita a vida sossegada para preparar roteiros de documentários e livros. O mais recente com fotos inéditas da cantora Elis Regina, no espetáculo “Falso Brilhante”, em sua estreia, em 1976.

Conhecido entre amigos como Geraldinho, como muitos outros redencenses teve que nascer em Taubaté por acaso, por falta de maternidade. Neto do Granadeiro Guimarães, e filho de artista, que foi a Redenção pintar afrescos no teto da antiga matriz da cidade velha, viveu lá até os quatro anos e mudou-se para Taubaté. Aos 16 anos foi para o Rio de Janeiro. Queria aprender a fazer cinema, mas acabou virando repórter fotográfico e caiu na armadilha do jornalismo. “Dizem as más línguas que eu fugi para o Rio de Janeiro. Não é verdade, pois minha mãe e minha avó sabiam e me mandavam mesada”, diz.

“O FOTÓGRAFO, ANTES DE TUDO, É A LUZ, POIS SEM A LUZ ELE NÃO É NINGUÉM EU SOU UM CONTADOR DE HISTÓRIAS, MAS SEM A LUZ EU NÃO CONTO HISTÓRIA NENHUMA. A LUZ É A RESISTÊNCIA”,
Geraldo Guimarães

Geraldinho passou pelos melhores e mais importantes veículos impressos da imprensa brasileira: Jornal do Brasil, Estadão, JT, Veja, Realidade. Morou na França, ganhou prêmio na Alemanha e faturou dois prêmios Esso de Jornalismo no Brasil. Conheceu e foi elogiado por Henri Cartier Bresson, o mestre do fotojornalismo mundial, que o convidou a trabalhar na sua agência, a Magnum, uma das maiores do Mundo.

Foi contemporâneo e trabalhou com grandes repórteres e fotógrafos como José Hamilton Ribeiro, Domingos Meireles, Fernando Morais – com quem cobriu a guerra da Nicarágua – Clóvis Rossi, Audálio Dantas, Ricardo Kotsho, Jacó Bittar, Jorge Araújo e muitos outros.

No começo rondava as produtoras como a Atlântica, Herbet Richers e outras, onde foi conhecendo as pessoas e arrumando algum trabalho. Em São Paulo estudou iluminação com Rodolfo Icsei, de quem foi assistente em diversos documentários. Quando chegou à capital carioca, em pouco tempo estava na TV Rio como cinegrafista. “Era uma emissora como a TV Globo de hoje, com muita força. Quando foi criado o primeiro programa policial na emissora, o “Plantão Policial”, virei assistente de redação, pauteiro, produtor, fazia de tudo um pouco. Mas não era isso que eu queria. Queria fazer cinema”, relembra.

Passou depois pela TV Continental e trabalhou com o documentarista Jean Manzon, antes de receber convite para fazer parte da equipe de fotografia do Jornal do Brasil. “Recebi um telefonema, mas pensei que fosse trote. A equipe do JB estava renovando o jornalismo brasileiro, só tinha fera lá e eu nem era fotógrafo. Mas o que chamou a atenção deles foram as fotos que eu havia feito na Central do Brasil para a abertura do programa policial na TV Rio”.

Do JB para a primeira equipe do Jornal da Tarde, na época a grande novidade do jornalismo brasileiro, foi um passo. O JT estava recrutando jovens talentos, de várias partes do Brasil, que se tornariam depois grandes jornalistas. No JT Geraldinho viveu uma de suas melhores fases. Fez muitas reportagens que se destacaram como a história dos bóias frias, com fotos suas e texto do renomado repórter Valdir Sanches. As fotos eram feitas de madrugada, quando os “bóias frias” chegavam de caminhão. A reportagem teve muita repercussão, inclusive na Alemanha – onde foi premiada -, o que lhe rendeu uma viagem ao país. “Lá eu não fiz o óbvio, mas fotografei as pessoas. Ainda quero voltar, ficar uns dois anos em Berlim e fazer um livro”.

Em 1967 cobriu a tragédia de Caraguatatuba – fortes chuvas que deixaram um saldo de 436 mortos -, que valeu um Prêmio Esso de Jornalismo para a equipe, que tinha como um dos repórteres, nada menos que Moisés Rabinovich, que se tornaria um dos mais talentosos correspondentes de guerra do jornalismo brasileiro. “Ele ainda era um menino”, relembra Geraldinho.

Foto de Geraldinho Guimarães de 1967, em que fortes chuvas assolaram Caraguatatuba (SP) e deixaram 436 mortos. A reportagem do Estado de S. Paulo ganharia um Prêmio Esso de Jornalismo pela cobertura do fato

Foto de Geraldinho Guimarães de 1967, em que fortes chuvas assolaram Caraguatatuba (SP) e deixaram 436 mortos. A reportagem do Estado de S. Paulo ganharia um Prêmio Esso de Jornalismo pela cobertura do fato

Aos poucos Geraldinho impôs sua marca, seu estilo, sua grife. Virou referência na cobertura das revoluções e das ditaduras latino-americanas. Em 1968, mais uma vez o elemento surpresa iria ao seu encontro. Ele estava chegando do Rio Araguaia, quando ficou sabendo que Mino Carta queria levá-lo para compor a primeira equipe da revista Veja, lançamento da editora Abril. Depois de tudo acertado, no período de transição entre sua saída do JT e a ida para a Veja, acabou “emprestado” para a revista Realidade, da Editora Três. “A Realidade era uma coisa maravilhosa. O repórter fotográfico participava das reuniões de pauta, dava sugestões. Parecia a redação do New York Times, coisa de primeiro mundo”.

De cara foi convidado a cobrir a guerra da Nicarágua com o repórter Fernando Moraes, por conta da sua experiência e conhecimento da América Latina, titulo de um livro que viria publicar mais tarde sobre as ditaduras do continente. “Amarramos a pauta de madrugada, num bar”, conta. Detalhe: uma das fontes era o escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez. Durante a cobertura, segundo diz Geraldinho, “o pau comeu” e eles saíram correndo da Nicarágua, então sob a ditadura de Somoza. A trajetória dos dois nesta cobertura inspirou o roteiro do filme “Sob Fogo Cerrado”, cuja foto de Daniel Ortega, na abertura é de Geraldinho. “Conseguimos chegar até ele e na hora de sair fugimos a pé, pois o taxi em que estávamos quebrou”.

Quando ainda morava em Paris, em 1970, já na Abril Press – onde ficou até 1975 – foi enviado para cobrir as eleições no Chile, vencida pelo socialista Salvador Allende, contra todas as previsões. “Só eu acreditei. Fiquei três meses lá e fotografei tudo. Por conta disso recebi convite para trabalhar na Associated Press”.

Depois de coberturas no Equador, na Argentina – onde o povo clamava pela volta de Perón –, no Peru e do golpe militar no Chile, quando Augusto Pinochet derrubou Salvador Allende, Geraldinho resolveu publicar, em 1978, o livro “América Latina”, cujas edições todas já se esgotaram, obviamente pela sua importância histórica.

Salvador Allende em registro de Geraldinho Guimarães

Salvador Allende em registro de Geraldinho Guimarães

Militares em Santiago do Chile, 1970 (Foto: Geraldinho Guimarães)

Militares em Santiago do Chile, 1970 (Foto: Geraldinho Guimarães)

Conflitos entre militares e o povo em Sabtiago do Chile, em 1972 (Foto: Geraldinho Guimarães)

Conflitos entre militares e o povo em Sabtiago do Chile, em 1972 (Foto: Geraldinho Guimarães)

Foi em Paris que ele viveu também um dos episódios mais importantes de sua carreira, ao ter seu trabalho reconhecido por Henri Cartier Bresson, o mestre do fotojornalismo mundial. Geraldinho foi encontrá-lo acompanhado do repórter Nirlando Beirão, que serviu de intérprete, pois seu francês era “cais do porto”. Bresson disse que já conhecia seu trabalho pelas matérias da Veja publicadas na Le Express, revista francesa. “Comentou que eu era muito jovem para ter o trabalho que já tinha. Ele me elogiou muito e abriu as portas da Magnum – uma das maiores agências de fotografia do mundo”.

Na editora Abril fotografou artistas para os fascículos da coleção “Música Popular Brasileira”. Fez amizades novas, mas alguns dos artistas retratados por ele como Paulinho da Viola e João Bosco e Aldir Blanc e Geraldo Vandré, já eram seus amigos. Também fez Carlos Lira e fotografou Nelson Cavaquinho jogando bilhar com João Bosco e Aldir Blanc. Milton Nascimento, o Bituca, ainda no início de sua carreira, também foi fotografado por ele.  Com Pelé, Geraldinho viveu dois momentos importantes: fotografou seu casamento e fez a cobertura dos seus 1000 gols, andando pelo país com ele. Com os irmãos Villas Boas foi ao Xingu e fotografou os índios.

No período da ditadura o fotógrafo foi preso e torturado na Operação Bandeirante (Oban) por ter fotografado Marighela morto, capa da revista Veja, na edição de 12 de novembro de 1969. Em 1985, também na Veja, passou uma temporada em Brasília para cobrir as “Diretas Já” e a eleição e morte de Tancredo Neves.

Carlos Mariguela morto. Foto que renderia a Geraldinho prisão e tortura durante a Operação Bandeirante (Oban) no período da Ditadura Militar

Carlos Mariguela morto. Foto que renderia a Geraldinho prisão e tortura durante a Operação Bandeirante (Oban) no período da Ditadura Militar

Reportagem da revista Veja, em que a foto foi veiculada

Reportagem da revista Veja, em que a foto foi veiculada

Geraldinho acumulou em 50 anos de fotografia um acervo que pode contar a trajetória do Brasil, da América Latina e até do Mundo, nesse período. Nos últimos dez anos, no entanto, optou por se recolher e aproveitou para preparar livros reunindo mais de 1,3 mil fotos. Um deles – o Motor Drive – publicado em 2000, teve a apresentação de Audálio Dantas, João Bittar e Clóvis Rossi. “Foi uma homenagem que eu quis fazer aos meus colegas repórteres fotográficos, mas a maioria não entendeu. Não sabiam o que é motor drive”. Ele se refere a um dispositivo de avanço do filme, acoplado às máquinas fotográficas, antes da era digital.

Fã convicto de Shakespeare, Dostoiévski e Akira Kurosawa, acredita que um bom livro não pode deixar o leitor “dormir” nas dez primeiras páginas, assim como um bom filme tem que ter ação logo nos primeiros dez minutos. Baseado nisso, e cada vez mais convicto de que a luz é a alma da fotografia, defende essas teses com empolgação quando fala do livro com fotos de Elis Regina no espetáculo Falso Brilhante, ainda no prelo, mas quase no ponto para ser lançado.

Geraldinho mostra as imagens inéditas de Elis Regina no espetáculo

Geraldinho mostra as imagens inéditas de Elis Regina no espetáculo “Falso Brilhante” que devem virar livro em breve

“O fotógrafo, antes de tudo, é a luz, pois sem a luz ele não é ninguém Eu sou um contador de histórias, mas sem a luz eu não conto história nenhuma. A luz é a resistência. Fotógrafo que usa flash seguramente não vai ter uma foto dessas [mostra uma foto do livro]. O flash interfere indevidamente na cena”, revela. Geraldo reconhece que foi “louco” ao arriscar as fotos, sem uso do flash. “Era para perder o emprego” diz. Mas será que alguém ousaria desafiar tanto talento?


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